Arquitetos propõem uma nova maneira de olhar – e fazer – moradias sociais ao deixar uma parte da obra sob responsabilidade dos moradores


Park Office 21.jan.2016 Blog

Propomos deixar de pensar na moradia como um gasto, mas como um investimento social.” A frase do arquiteto chileno Alejandro Aravena explica bem os conceitos da arquitetura colocada em prática em seus projetos para a Elemental. A empresa – na verdade, um “do tank” com projetos para as cidades, associada à Pontifícia Universidade Católica do Chile e à Copec (Companhia de Petróleo do Chile) – trabalha na busca de soluções para resolver tanto o problema da habitação quanto o da integração da população à cidade.

 

Dentro de um programa do Ministério da Habitação Social chileno que concede um subsídio de 7.500 dólares por família carente para financiar a construção de suas casas, os projetos da Elemental buscam transformar o gasto social em investimento. “O problema é desenhar de tal forma que a residência aumente de valor no decorrer do tempo. É algo desejável do ponto de vista do patrimônio familiar e é um indicador de que essa família está menos pobre, porque pode investir em sua casa e não gasta toda sua renda para sobreviver”, afirma.

A verba disponibilizada para a compra de terreno, trabalhos de urbanização e arquitetura, segundo cálculos da Elemental, só permite a construção de cerca de 30 m², conta que gera limitações ao projeto. “Mais do que uma idéia, é uma restrição. O dinheiro não é suficiente para construir toda a casa, apenas para a metade. Então, a pergunta-chave para essa questão é: que metade fazemos?”, questiona Aravena.

A resposta encontrada pela Elemental consiste na construção da parte mais difícil da casa, aquela que a família nunca poderá fazer sozinha, nas palavras de Aravena. Isso engloba banheiros, cozinha, escadas e muros intermediários. A outra metade fica a cargo das famílias que, segundo o planejamento, podem ampliar sua moradia até chegar a cerca de 72 m². “Fazer uma estrutura inicial que pense no tamanho final da casa é o uso estratégico do projeto. A idéia é fazer bem o que uma família não pode fazer individualmente e fazê-la crescer e dispor de melhores meios para a conclusão do projeto”, define o arquiteto.

Qualidade sem monotonia
Do problema da falta de recursos acabou surgindo uma solução à monotonia e à repetição, resultados normalmente adotados pela necessidade de baixar custos. “A segunda metade, construída pelas famílias, customiza e personaliza a resposta, de forma que a monotonia inicial pode ser a única maneira de fazer com que a diversidade não signifique deterioração”, avalia Aravena.

A qualidade das habitações é a grande preocupação da Elemental, principalmente porque o projeto trabalha com várias realidades dentro do território chileno. Como explica o arquiteto, não se trata de fazer um só protótipo: cada conjunto teria de ter uma escala que cobrisse uma grande quantidade de casos e realidades próprias. “As necessidades são enormes, e as respostas têm de ser massivas. Ser capaz de manter a qualidade em grande escala é o nosso maior desafio”, afirma. Nesse sentido, a estratégia de crescimento da moradia exigiu dos projetistas um cuidado especial na hora de pensar a forma arquitetônica do conjunto.

Iquique
O primeiro projeto do programa foi concluído em 2004, e está localizado na cidade de Iquique, no deserto chileno. A intervenção aconteceu a pedido do governo: era preciso radicar 100 famílias que nos últimos 30 anos haviam ocupado ilegalmente um terreno de 4 mil m², cujo preço era três vezes maior do que um programa para habitação social normalmente pode pagar.

Decidiu-se primeiramente pela não construção de casas isoladas, pois esse tipo de moradia beneficiaria um número reduzido de famílias – o que diminuiria o poder de compra para adquirir o terreno, e, conseqüentemente, levaria a população a áreas periféricas, regiões marginalizadas da rede de oportunidades que a cidade oferece.

“Uma pergunta que temos de nos fazer bastante é onde serão construídas essas casas. Se as habitações sociais estão integradas às redes de oportunidades das cidades (trabalho, educação, saúde, transporte etc.) então já resolvemos um problema sério. Modificar sua localização na cidade é algo que nunca poderá ser melhorado por uma família”, afirma o arquiteto, que considera a boa localização um fator-chave para a valorização da moradia e a conservação da economia de cada família.

A tipologia adotada em Iquique foi então pensada de forma a atingir uma densidade suficiente para que se pudesse comprar o terreno. Em vez de desenhar a melhor unidade possível dentro de 7.500 dólares multiplicados por 100, a equipe da Elemental se perguntou qual seria o melhor edifício de 750 mil dólares capaz de abrigar 100 famílias.

Se investissem em edifícios altos, não seria possível aumentar a superfície original da moradia, com exceção do primeiro e último piso, que pode crescer verticalmente enquanto o outro sempre pode ser ampliado horizontalmente sobre o solo. A solução foi a construção de edifícios com dois andares, divididos em quatro grupos, já estruturados para sua futura ampliação. Cada edifício é composto de duas casas, uma no primeiro nível – ampliável em um quintal aos fundos e no espaço abaixo da laje que separa os dois níveis – e um apartamento dúplex com espaço para crescer ao lado.

No primeiro nível a residência é entregue com 6 m x 6 m, área que pode crescer dentro do lote de 9 m x 9 m. Já no segundo, a área inicial é de 3 m x 6 m, ampliável em mais 3 m para o lado.

“Hoje essas casas valem três vezes mais do que o seu custo. Isso é desenhar a moradia social como investimento mais do que como um gasto público, que é o ponto central da Elemental”, diz Aravena.

Lo Espejo
Conceitos semelhantes aos de Iquique foram aplicados na construção do conjunto em Lo Espejo, na capital Santiago, localizado nas proximidades de uma das principais vias da cidade. Concluído em novembro de 2007, o lugar abriga 30 famílias em uma área de 1.568 m². A diferença com relação ao primeiro projeto está na área das residências: em Lo Espejo tanto a casa térrea quanto o apartamento dúplex podem chegar ao máximo de 6 m de largura. Outra adaptação de um projeto para o outro surgiu a partir das diferenças climáticas. “Em Lo Espejo nós gastamos dinheiro em um teto contínuo, como parte da metade entregue, porque em Santiago há chuvas constantes. Em Iquique nós não tivemos esse problema, pois fica no deserto”, comenta Aravena.

O terreno de Lo Espejo conta com três de seus quatro lados urbanizados, disposição adotada com o objetivo de organizar as moradias sem que fossem necessárias novas obras de pavimentação. O edifício ganhou uma orientação contínua em duas fissuras no sentido longitudinal do terreno, paralelas à área de restrição gerada por um antigo canal.

A largura do terreno, considerada excessiva, foi aproveitada na forma dos quintais privados que recebem as ampliações dos primeiros pisos. Com essa operação, a casa térrea tem dimensões iniciais de 6 m x 6 m, enquanto o apartamento dúplex possui 3 m x 6 m, mesmas medidas reservadas para o crescimento da moradia ao lado.

SHARED CONSTRUCTION
“We have proposed to stop thinking of a home as expenditure, but as social investment”. The phrase by the Chilean architect Alejandro Aravena explains the architectural concepts of the Elemental – a “do tank” associated to PUC-Chile and to Copec. Within a program by the Chilean Social Housing Ministry which allowed a subsidy of 7,500 dollars per needy family to finance the construction of their homes, the Elemental projects seek to turn the social expenditure into an investment. The budget only allows the construction of some 30 m2.”The money is not enough to build the entire house, only half of it. The key question is: which half shall we build?” asks Aravena. The answer found by Elemental consists of the construction of the most difficult part of the house: bathrooms, kitchen, stairs and intermediate walls. The other half will be the responsibility of the families. The first project is located at the city of Iquique, in the Chilean desert, in which, instead of designing the best possible unit within 7,500 dollars multiplied by one hundred, the Elemental team asked itself which would be the best 750 thousand building capable to shelter 100 families. The solution was the construction of two-floor buildings already structured for their future expansion.

“We supposed that if we have a point, it should be proven by building (the paper and the computer displays are harmless), and to build following the same rules of the game: economical, political, social and delivery dates”, concludes Aravena.

Publicado originalmente: Revista AU

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